Foi lá pelos meados dos anos 70 que eu, mineira morando em São Paulo, conheci o arroz carreteiro. E não foi nada brilhante esta experiência.
Jovens, muito jovens ainda, fomos jantar na casa do casal amigo e querido, repórteres de esporte do inovador Jornal da Tarde, Zuba e Cheva (Antônio Carlos de Oliveira Coutinho e Regina Echeverria, hoje escritora especializada em biografias, escreveu sobre diversos personagens da história brasileira, como Elis Regina, Cazuza, Sócrates, Pierre Verger, Mãe Menininha, Princesa Isabel, Gonzaguinha e Gonzagão e Fagner).
Nesse jantar, outros amigos do casal, um bando de gaúchos, todos jornalistas. Belmiro, Severo e Jorge Escosteguy, o desastrado cozinheiro da noite. Escosteguy saiu de Santana do Livramento (RS) e foi subindo rumo a São Paulo trabalhando em vários jornais e revistas e emissoras de tevê. Morreu novo, poucos dias antes de completar 50 anos.
Mas voltando ao arroz, pelo que consegui resgatar das lembranças, ele simplesmente misturou com o arroz o charque cortado em pedaços e sem dessalgar, sem cozinhar antes, sem tirar nenhum nervo ou gordura. Cobriu com água e colocou no fogo para cozinhar.
Resultado: depois de um tempo o arroz ficou macio, mas a carne continuava duríssima. Ele foi botando mais e mais água. Conclusão: um arroz desmanchando e pedaços de carne ainda duros. Um fiasco. Mas quem se importou com isso. A conversa era ótima, a cerveja gelada…
Depois desta trágica experiência comecei a experimentar receitas de arroz carreteiro e atualmente acho que consegui chegar a um bom resultado (com certeza muito melhor do que a primeira experiência).
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| Arroz carreteiro mais saladinha verde. Precisa mais nada!!! |
Mas antes, como escolher a carne
Pela origem do prato, melhor seria usar o charque, também gaúcho. Mas onde achar o verdadeiro charque?
A bem da verdade há uma grande confusão principalmente entre carne seca e charque. E o pior é que os frigoríficos inventaram um novo nome. Muito pior, usaram um nome em inglês para denominar a brasileiríssima carne seca. Agora ela se chama, pasmem “jerked beef”.
No Wikipédia a definição é esta: O Jerked beef (tradicionalmente traduzido como carne seca) é um produto assemelhado ao charque, classificado e aprovado pelo Ministério da Agricultura como "carne bovina salgada, curada e dessecada".
Então tá: carne seca = jerked beef.
E o charque?
Definição encontrada no site tudogostoso: “Ele é típico do Rio Grande do Sul e seu processo de desidratação é bastante parecido com o da carne seca. A diferença está na quantidade de sal utilizada: ela é bem mais salgada e fica com textura mais firme. O charque é preparado com carnes com bastante gordura, geralmente os cortes dianteiros do boi.”
Já diferença entre carne seca e carne de sol (você já deve ter escutado esse nome que também é usado) eu encontrei na revista Superinteressante, de 2006.
Num artigo assinado pelo jornalista Marcos Nogueira, hoje colunista da Folha de São Paulo e do delicioso blog Cozinha Bruta, esta é a explicação:
“A principal diferença é que a carne seca, como o nome dá a entender, é mais seca que a carne de sol. E também mais salgada. A carne de sol, diferentemente do que o nome dá a entender, não é exposta aos raios solares. Os cortes do traseiro do boi são salgados e deixados para secar por 2 ou 3 horas em um lugar coberto, de preferência com vento”. Ela é bem mais úmida e bem menos salgada do que a carne seca.
Depois de tanta discussão e explicação vamos ao que interessa. A receita.
Eu sempre uso a carne seca no preparo deste arroz carreteiro. E prefiro a carne do traseiro que é menos gordurosa.
A receita
Ingredientes:
- 500 g de carne seca (traseiro)
- 8 dentes de alho inteiros
- 1 cebola grande picada
- 4 colheres (sopa) de azeite
- 1/2 pimentão verde e 1/2 pimentão vermelho picados
- 1 pimenta dedo de moça
- 200 g de arroz
- 1 xícara (chá) da água do cozimento da carne seca (250 ml)
- 1 xícara (chá) de água (250 ml)
- 3 tomates picados sem pele, mas com as sementes
- 1/2 colher (chá) de sal
- 1/2 xícara (chá) de salsa e cebolinha picadas
Preparo:
3. Reserve uma xícara de chá da água do cozimento.
6. Adicione o arroz e deixe fritar um pouco.
7. Junte a carne seca, misture bem e acrescente a água do cozimento da carne. Quando começar a secar, espalhe o tomate sobre o arroz.
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| Com o arroz no prato adicione parmesão ralado e um fio de azeite. Não sei se os gaúchos vão me condenar... mas fica bem bom! |








Tão saborosas quanto as receitas são as histórias que vem junto!!!
ResponderExcluirQue bom que você gostou e até aproveitou a receita. Fiquei toda orgulhosa!!!
ExcluirQue bom que vc já me deu esta receita há muito tempo e ela faz um sucesso danado. Agora, este queijinho no fim é novidade...
ResponderExcluirAproveita minha irmã e não economiza no queijo ralado. Fica muito bom!!!
ExcluirAgora posso dizer que sei tudo sobre "carne seca", como costumamos dizer, graças ao excelente texto de Berenice. Que texto lindo, todo documentado, agradável de ler. Quanto à receita, já comprei a carne seca, ou "melhor", o jerked beef.
ResponderExcluirEstou aqui toda orgulhosa com o seu comentário. Obrigada pelas palavras de incentivo. Agora espero um retorno de como ficou o seu arroz carreteiro!!!
ExcluirBerenice adorei a receita e a história do encontro dos jornalistas, que saudades deste tempo! Vou preparar logo está receita, bjs
ResponderExcluirQue bom Marilinha Balbi, que você gostou. Também tenho saudades daquele tempo...
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